Le Tigre

Le Tigre

A temática de grande parcela da música pop tem sido, através dos tempos, destrinchar a alma humana em diferentes aspectos. Muitas análises comportamentais já foram cantadas, algumas de forma irônica, outras em sentido figurado, ou ainda como parte da conclusão de uma pequena história. Relacionamentos amorosos felizes, frustrados ou conturbados também fornecem farto material a ser abordado. Enfim, a riqueza do ser humano é infindável e a música continuará cumprindo sua função de narrar seus sentimentos tão diferentes e variados.

Por outro lado, existem artistas que preferem tratar de argumentos mais concretos, se enveredando pela militância na música. Defender um propósito é plenamente legítimo, seja ele racial, sexual, ideológico, político ou qualquer outro. Mas há os que extrapolam e acabam desvirtuando o fator diversão da música, justamente o que a torna acessível. Confundir seriedade com sisudez é o engano cometido por algumas bandas.

Exemplos de radicalismo no discurso não faltam, apesar de termos figuras destacadas, como o Live em sua fase “ecochata” que até o próprio Greenpeace deve condenar. A mistura denuncista do Rage Against the Machine também foi notável, pois visou vários alvos sem se aprofundar em nenhum, condenando-se à irrelevância.

Já entre os músicos militantes que tentam passar sua mensagem de maneira festiva estão os precursores do punk. Música animada e divertida embalam relatos de impropriedades ocorridas. A luta contra uma classe dominante que visa concentrar cada vez mais poder é ritmada por um som empolgante. É a música cumprindo uma antes impensada função social de maneira plena e verdadeira.

Nos dias atuais, o punk serve de influência para muitas bandas, tanto musical como ideologicamente. E um dos grupos que assume essa estética é o Le Tigre. Aliás, o Le Tigre busca nas décadas passadas o punk e o seu contemporâneo new wave, construindo uma mistura bem explosiva. O grupo foi formado pela ex-líder do “irado” Bikini Kill, Kathleen Hanna, em companhia da videomaker Sadie Benning, depois substituída pelo excêntrico DJ Dsamson, e da produtora de fanzines Johanna Fateman. O trio americano baseia sua pregação na defesa dos direitos das mulheres. A bandeira feminista divide espaço com uma música que contém a inteligência e o bom-humor do punk. O visual dos integrantes do Le Tigre é completamente retrô, e permite à banda contestar dogmas pré-estabelecidos com sua aparência carregada.

Transgredir regras é bem natural para o Le Tigre. Ao invés de queimar sutiãs em praça pública, o feminismo do grupo permite o uso do visual extravagante. E para quem talvez esperasse uma música raivosa de uma banda que investe no ativismo político, o Le Tigre oferece um som alegre que não soaria deslocado em nenhuma festa. O experimentalismo eletrônico é levado às últimas conseqüências, em altos níveis de criatividade.

Fiel aos ensinamentos punk, o Le Tigre une a necessidade de deixar seu recado contra o injustificável sexismo, à capacidade de proporcionar diversão em forma musical.

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